Goodbye Blues Monday

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Que o Jazz me perdoe, mas o Blues é o melhor estilo de música do mundo.

Nessa playlist resolvi reunir um pouco das minhas músicas preferidas, muito do peculiar Delta Blues e seu som marcante, melancólico e instrospectivo e passando um pouco pelo Blues da guitarra elétrica, que teve origem em Chicago.

Sem muita conversa, apreciem e adeus segunda-feira blue!

O destino de Vale.

Vale
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Valentina era uma menina especial.Do tipo que não se ajusta aos padrões. Desde que o seu pai, João, a levou para assistir Cosmos, refilmagem da série clássica de Carl Sagan, ela criou uma paixão desenfreada por ficção cientifica e perdeu o gosto por bonecas. Aos 12 anos, preferia passar tardes jogando seixos no rio e sonhar com aventuras entre naves, alienígenas disformes e o espaço. Ela amava o espaço e seus mistérios mais do que qualquer outra coisa no mundo.

Uma noite, exausto depois de um longo dia trabalhando no escritório de contabilidade, João ouviu no jornal local, que exatamente naquela noite, o cometa “Hale-Bopp 2” iria passar pela órbita da terra e todos naquela região poderiam ver a olho nú. Vale, como João costumava chamava a sua filha, estava deitada na sua cama, com as pernas cruzadas. João parou na porta e admirou a sua filha e o seu jeito esquisito de dormir, herança da sua mãe, avó de Vale.

Ele foi conversar com a sua mulher, Isadora, sobre a ideia de levar Valentina para ver o cometa em um ponto escuro e alto na estrada. Ele já tinha ido no lugar uma centena de vezes. Era um lugar especial para Isadora e João, lá secretamente foi o local onde deram o primeiro beijo, fizeram amor pela primeira vez e onde olhavam para o céu, como se buscassem alguma explicação para o turbilhão de emoções e história que aquele lugar trazia. Sempre protetora, no primeiro momento, ela relutou, mas cedeu. “Um cheiro no cangote e um sorriso resolvem qualquer coisa”, disse João com um sorriso sacana.

Ele foi ao quarto de Valentina, que era todo decorado com um misto de espaço, futebol e “frufrus”, essa última parte exigência de Isadora. Deu um beijo longo na cabeça de Vale e avisou do programa surpresa da noite. Vale não conseguia se expressar diante de tamanha alegria, talvez fosse nova demais para expressar emoções, ela se limitou a dar um grito que quase acordou toda a vizinhança.

Tampouco pensou em pegar algo para comer durante a curta viagem. Pegou o casaco. Pegou a sua luneta jr, dada pelo seu pai no último aniversário. Deu um beijo em Isadora e partiu com João. O coração apertado e as lágrimas de emoção de Isadora se misturavam com o tempo frio que fazia na cidade. “Sempre olhe para as estrelas, Vale. Lá nós temos a resposta para tudo”, disse antes de fechar a porta, enxugar as lágrimas e pensar no que ia fazer enquanto João e Vale não voltam. Decidiu ir fazer um brigadeiro americano e ir ver algumas séries.

Na estrada João e Valentina seguiam ao lugar especial. A playlist do carro de João tinha de Chico Buarque até Slayer. Vale preferia os “garotos de Liverpool”. “Coisas da sua mãe”, dizia brincando João enquanto segurava o volante com uma mão e fazia cafuné em Vale com a outra.

A noite estava limpa, com poucas estrelas e nenhuma nuvem. Com o balançar do carro e o cafuné, Vale que olhava para o céu incansávelmente, foi caindo no sono.

Alguns minutos depois Valentina ouviu um barulho agudo e logo em seguida um agressivo, que quase estourou os seus tímpanos. Ela acordou com susto e de relance pode ver uma luz brilhante e majestosa, refletindo no semblante de horror, jamais antes visto no rosto de João.

O silêncio tomou conta do carro. Tudo foi tão rápido e intenso que Vale não conseguiu entender o que aconteceu.

Valentina acordou, sentia o seu corpo dormente e preso a algo muito frio. Ela queria chorar, mas não conseguia. Sonhar e fantasiar, ela conseguia. Imaginou estar em casa, comendo torradas e vendo o sorisso da sua mãe e o seu pai contando algum caso da juventude. Esse devaneio durou pouco.

Por mais que tentasse, não conseguia abrir os olhos finos e delicados. Por medo.

Alguns minutos depois, Valentina sentiu mãos a segurando. Ouviu vozes. Vozes, não palavras. Ela não entendia nada do que estava sendo dito naquele lugar. Forçou mais uma vez tentando abrir os olhos. A ousadia custou caro para Vale.

Os olhos finos e delicados, se transformaram em pavor. Apesar de se sentir treinada após anos de Arquivo-X, Battlestar Gallactica, Guerra dos Mundos e todos os filmes vistos, quadrinhos e livros que seu pai leu para ajudar a dormir e naqueles dias na beira do lago, a visão era aterradora. Ela tentou olhar em volta para encontrar o seu pai. Não encontrou.

Os seres não tinham rosto e seu corpo era coberto por uma camada branca. Não se pareciam com nenhum tipo de ET que Valentina conhecia. Ela não sabia se eles estavam ali para feri-la.

Ela ouviu um barulho conhecido. Parecia com uma voz humana, mas estava distante. Ela lembrou de uma história lida por seu pai, em que os aliens sequestravam pessoas para obter informações sobre os seres humanos. Ela tentou se comunicar. Balbuciou algumas coisas. Sem resposta.

O desespero tomou conta de Valentina, naquele momento ela só queria um abraço dos seus pais. Mas não sabia nem se iria os ver novamente. Chorou.

Os estranhos seres, estavam se revezando ao lado de Valentina. Dessa vez, ela conseguiu ver objetos nas mãos dos alienígenas. Não sentia nenhuma dor, mas sabia que estava sendo examinada.

Novamente ela ouviu uma voz. Muito parecida com a da sua mãe. Mas diferente da voz naturalmente feliz de Isadora, o som estava aflito e caótico. Vale, ficou feliz mesmo assim. A felicidade durou pouco.

Talvez por esgotamento ou pela simples necessidade de sobrevivência, Vale se acalmou. Levantou a cabeça o mais alto que podia e olhou diretamente para o ser disforme diretamente. Ela começou a ter medo. Quando os olhinhos dela se acostumaram, ela viu algo que transformou tudo. Ela viu um ser humano.

Não era um rosto conhecido de Valentina. Aos poucos, forçando um pouco mais ela viu mais humanos. Todos de jalecos e viu algo que não quis acreditar. Seus pais. Chorando.

Em instantes, Vale percebeu o que aconteceu. O seu coração apertou e ela lembrou dos abraços e longos beijos na cabeça que seu pai lhe dava, do sorriso e do carinho da sua mãe e de que os dois só não iam mais viver junto dela.

As lembranças felizes e a sua imaginação eram a sua nova vida. Finalmente ela de alguma forma se sentia preparada. Tudo que os seus pais ensinaram com ficção e imaginação, agora vão servir para algo palpável. A coragem, as aventuras. Aquele mundo podia ser transformador.

Ela decidiu fechar os olhos, relaxar a cabeça na mesa fria da sala e sonhar. Sonhando, seria o começo de um mundo totalmente novo, e ela iria viver tudo o que um dia imaginou. Fechou os olhos, e pensou…

…Na morte só nos resta sonhar.