Foi logo nos primeiros raios de sol daquela manhã de algum dia durante as minhas primeiras férias escolares. Para um menino qualquer, aquele período devia representar acordar todo os dias depois das dez horas da manhã, mas um barulho de bandejas e pratos me fizeram levantar do colchão colocado ao lado da casa de casal dos meus avós.

Foi a primeira vez que me recordo de ver o café da manhã na cama. Meu avô chamava com seu jeito doce o nome da minha avó e vinha batendo a colher no copo com leite para chamar a atenção, ela quase sempre estava ainda no último sono e reclamava também de forma muito doce, falando o seu apelido em tom de resmungo “Rôsii…”

Naquele momento, levantando a cabeça e sendo convidado por minha avó para ajudar ela a comer as bolachas sortidas que vinham em uma grande caixa quadrada, tomar um copo de leite com Nescau e comer o sanduíche que tudo mudou no meu entendimento infantil do que é amar.

Naquele dia eu não parei para refletir sobre aquele ato do meu avô, sinceramente no momento eu estava preocupado em catar as bolachas de leite, descartar as champagne e esconder todas as marias, para comer de tarde acompanhando de uma lata de leite condensado.

Meus avós para mim são o casal mais perfeito do mundo. Nenhum filme que eu vi, nenhuma história escrita, nenhuma paixão da adolescência e nem aquela lágrima derramada em comemoração ao gol improvável aos 45 minutos do segundo tempo, me parece tão puro quanto o amor dos dois.

Com o passar dos anos, fui aprendendo férias após férias, visitas após visitas que aquele café da manhã na cama, não era apenas um incentivo à refeição mais importante do dia, mas sim um simbolo de respeito e idolatria que o meus avós estavam me ensinando indiretamente.

Minha avó nunca foi uma cozinheira de mão cheia, daquelas que esperamos o domingo para comer o cozido feito por ela e depois capotar na cama de tão empanturrado. Mas a medida que eles foram envelhecendo e meu avô apesar de tentar, já não tinha tantas condições de preparar diariamente aquele café da manhã, minha avó tomou o lugar dele.

Acordava um pouco mais cedo que o de costume, preparava um café, um pão e ai o papel se invertia. Ele que começou a receber o café da manhã na cama. Eles nunca se obrigaram a isso, era pura reciprocidade e companheirismo.

Acordo todos os dias e preparo o meu café da manhã pensando nos meus avós. Quanto mais penso neles, mas fica claro que hoje colocamos tantos empecilhos para se respeitar e amar outras pessoas e fica mais claro ainda o que aquelas férias representaram para mim e como meu avô é o modelo de homem que eu quero sempre ser.

Infelizmente o tempo o levou, e hoje vou dormir pensando em como a minha avó não recebe mais o café da manhã na cama do “seu Rosinaldo” e em como nunca mais sentaremos no sofá para ouvirmos as histórias da vida dele e da minha infância.

Mas sempre quando penso nisso, costumo fechar os olhos e lembrar daquele dia, deitado no colchão vendo o primeiro café da manhã na cama e como aquilo me tornou um cara muito melhor hoje.

Desde aquele dia eu estou escrevendo a história mais bonita da minha vida, sobre um menino, a história de amor diária dos seus avós e um café da manhã levado na cama.

Sempre.

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