O Inferno pode ser gelado como uma bola de sorvete

Hoje foi aberta a primeira loja da Ben & Jery em Salvador, uma sorveteria pomposa que tem duas vacas simpáticas como mascotes e eles tiveram a brilhante ideia de comemorar essa abertura distribuindo sorvetes grátis durante algumas horas do dia para os transeuntes do maior shopping da capital.

Infelizmente era halloween no país de origem da sorveteria e o terror estava prestes a começar.

A fila já se formava desde às 8h da manhã e circulava todo o piso do shopping, parecia a bilheteria do TCA em dia de distribuição de ingresso para show na Concha Acústica.

Todos os funcionários estavam animados, sorridentes, devidamente fardados e tocavam aquela sobremesa dos deuses como se fosse uma pequena relíquia.

Mas em meio a toda aquela animação pujante, um funcionário estava nervoso e suava mais do que o pote que guardava o sorvete quando tirado do freezer e estava tão gelado quanto.

Josias era bom na ponta da caneta e mais cedo tinha feito às contas, a sorveteria disponibilizou 20 potes grandes para a distribuição, porém, haviam sido entregues apenas 5, e aquela quantidade alimentava no máximo 300 pessoas, e no olhômetro, a medida que nunca falha, ele já enxergava umas 1000, se não tivesse mais, já que a sua miopia podia atrapalhar a contagem de forma mais exata.

– Seu Rubens, esse sorvete não vai dar para todo mundo não… isso vai dar merda.
– Porra nenhuma, Josias, merda é que você tem na cabeça…
– Ah é, sua desgraça? Quem vai ficar é o coelho…

e pulou o balcão para a liberdade.

A porteira da fazenda foi aberta exatamente às 14h daquele dia e a fila foi andando. De um à um os sorvetes eram distribuídos com vigor, lá pelas 14:32, já estava na metade e eles resolveram segurar, aquela festa precisava durar até pelo menos 17h, hora marcada para a imprensa chegar e pegar apenas pessoas felizes e anestesiadas com tanto açúcar no sangue.

O sorriso antes presente nos rostos estavam sendo inundados por um suor de nervoso e os dentes rangiam como se estivessem trancados dentro do freezer da Ben & Jerry’s por semanas.

O público estava ficando impaciente, o gerente resolveu tomar a dianteira e subiu em uma cadeira improvisada para falar para a multidão que o sorvete estava acabando a distribuição estava suspensa por enquanto.

Em instantes, o rubor de vergonha que estava no seu semblante, deu lugar a um creme pastoso vermelho que escorreu por toda a sua face.

Sem que ele percebesse, o público inconformado invadiu a pequena loja localizada na região central do shopping e deu inicio a PRIMEIRA GUERRA DO SORVETE da Bahia.

Todas aquelas cores, texturas e sabores, misturados com o ódio, suor e inconformismo, fez o Salvador Shopping se transformar em uma espécie de Holi Festival doce do Inferno.

Aquele lugar podia até ter se tornado o inferno, ou algo muito próximo a uma Sodoma e Gomorra diabética, mas o verdadeiro tinhoso não.

Algumas horas antes em algum lugar de Salvador…

– Patrão! A desgraça do carreto fez uma entrega errada… trouxe uns potes de um tal de Ben & Jerry’s aqui… é fornecedor novo?
– Relaxa…
– Faço o que com isso? Guardo?

Dando aquela coçada gostosa na barriga, de perninha cruzada e puxando um cigarro

– Guarda lá no deposito, devem ter entregado errado, depois mandamos devolver. Em terra de capelinha e soverteria da Ribeira, Ben & Jerry’s não se cria, pai!

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